Crônica: O cavalo e seu menino. Capítulo 10: Um eremita no caminho.
"Foi uma árdua corrida para os cavalos. A cada crista de serra sucedia um vale, depois outra crista, depois outro vale; embora soubessem que seguiam mais ou menos a direção certa, ninguém tinha ideia da distância que os separava de Anvar. Do alto de uma serra, Shasta olhou novamente para trás: em vez de uma nuvem de pó, viu um bando escuro movendo-se na margem do rio. Pareciam formigas procurando uma passagem.
- Rápido! - gritou Aravis. - Era melhor não ter vindo, se fosse para não chegar a Anvar antes deles. Galope, Bri, galope! Afinal, você é um guerreiro!
Shasta ficou calado, pensando: "O coitado já está dando o máximo!" Bri alcançara Huin e ambos corriam lado a lado sobre a relva. Parecia impossível que Huin pudesse resistir por muito mais tempo.
De repente, um barulho atrás deles deixou-os completamente atônitos. Não era como esperavam, o barulho de cascos e tinidos de armaduras, mesclados talvez com gritos de guerra calormanos.
Shasta percebeu logo do que se tratava: era o mesmo rugido que ouvira na noite do encontro com Aravis e Huin. Bri também percebeu. Seus olhos reluziram, vermelhos, e suas orelhas deitaram-se para trás. Só então descobriu que não ia tão veloz quanto podia. Shasta imediatamente notou a mudança de velocidade. Em poucos segundos ultrapassaram Huin. "Não é justo!", pensou Shasta, "achei que aqui estaríamos a salvo de leões."
Tornou a olhar para trás. Tudo nítido: uma criatura imensa e fulva estava atrás deles, com o corpo roçando no chão, como um gato que se prepara para saltar a uma árvore quando um cachorro estranho entra no quintal. E se aproximava cada vez mais.
Ao olhar de novo para a frente, outra surpresa: o caminho estava impedido por um muro verde de uns três metros de altura. No centro do muro havia um portão aberto. Bem no meio da entrada do portão estava um homem alto, vestido com um manto alaranjado, apoiando-se numa bengala. A barba quase lhe batia nos joelhos.
Shasta viu tudo de relance e virou-se novamente para trás. O leão já roçava com as garras as pernas traseiras de Huin, que não tinha mais esperanças nos olhos esbugalhados.
- Vamos socorrer Huin – gritou Shasta na orelha de Bri.
Bri mais tarde garantiu não ter ouvido nada, ou não ter entendido; como foi, em geral, cavalo de palavra, devemos acatar o que disse.
Shasta puxou os pés dos estribos, virou as pernas para o lado esquerdo, hesitou durante um pavoroso centésimo de segundo e pulou. Doeu horrivelmente, mas, antes de ter consciência disso, já ia cambaleando para ajudar Aravis. Jamais tinha feito uma coisa dessas em toda a vida e mal sabia por que estava fazendo isso naquele instante.
Um dos mais terríveis ruídos do mundo, um berro de cavalo, partiu dos beiços de Huin. Aravis debruçava-se sobre o pescoço dela, tentando puxar a espada. E já os três – Aravis, Huin e o leão – estavam quase em cima de Shasta. O leão ergueu-se nas patas traseiras, imenso, e estendeu as terríveis garras da pata direita para Aravis, que deu um grito e rodopiou sobre a sela. O leão atingiu os ombros dela. Transtornado pelo terror, Shasta conseguiu aproximar-se da fera, sem um porrete, sem uma pedra na mão. Gritou, bobamente, como se o leão fosse um cachorro: “Vai para casa! Já para casa!” Por uma fração de segundo viu-se cara a cara com o leão, a um palmo da bocarra escancarada. Aí, para seu absoluto espanto, o leão, ainda sobre as patas traseiras, refreando-se de súbito, virou-se e saiu em disparada para trás."
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