Jude acordou por volta das três da manhã com aquele barulho, passos de um lado para outro no corredor, um rumor e um sopro de movimento incessante, um leve choque contra a parede.
Os cães estavam na parte externa do canil, perto da parede do celeiro. Angus rodava de uma lado para outro sobre a palha, o corpo comprido e liso se agitando em escorregadios movimentos laterais. Bon estava rigidamente sentada num canto. Tinha o focinho levantado e o olhar fixo na janela de Jude - nele. No escuro, um verde muito vivo e anormal brilhava nos olhos dela. Estava quieta demais, com o olhar concentrado demais, como uma estátua de cachorro em vez da coisa real.
Foi um choque olhar pela janela e encontrar os olhos de Bon fixos nele, como se ela tivesse observando o vidro só Deus sabe por quanto tempo à espera que Jude aparecesse. Mas pior do que isso era saber que havia alguma coisa na casa, andando de um lado para outro, batendo nas coisas no corredor.
Ouviu uma tábua corrida ranger no corredor, depois outra, depois um suspiro, como alguém parando cansado. Seu pulso acelerou. Ele abriu a porta.
Mas o corredor estava vazio. Jude chapinhou por compridos retângulos de luz glacial, atirada pelas claraboias. Parava diante de cada porta fechada, prestava atenção, depois dava uma olhada no interior.
Subiu a escada e começou a voltar pelo corredor em direção ao quarto. Seu olhar bateu num velho, sentado numa antiga cadeira Shaker encostada na parede. Assim que o viu, seu pulso disparou em sinal de alarme. Jude se virou para o lado, fixou o olhar na porta do quarto e só continuou a enxergar o velho pelo canto do olho. Nos momentos que se seguiram, ele sentiu que era questão de vida ou morte não estabelecer contato visual com o homem, não demonstrar que o via. Ele não estava vendo nada, Jude disse a si mesmo. Não havia ninguém ali.
A cabeça do velho estava curvada. Seu chapéu descansava no joelho. O cabelo escovinha, cortado rente, tinha um brilho de geada. Os botões na frente do paletó cintilavam no escuro, cromados pelo luar. Jude reconheceu num relance o paletó. Da última vez que o vira, estava na caixa preta em forma de coração, uma caixa que tinha ido para o fundo do closet. Os olhos do velho estavam fechados.
O coração de Jude martelava, era uma luta para respirar. Ele continuou andando para a porta do quarto, que ficava bem no final do corredor. Quando passou pela cadeira Shaker, encostada na parede da esquerda, sua perna roçou no joelho do homem e o fantasma ergueu a cabeça. Mas Jude já estava além dele, quase na porta. Tomava cuidado para não correr. Não importava que o velho o observasse pelas costas, desde que não houvesse contato visual entre um e outro - aliás, o velho não existia."
by Aline Oliveira
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