sábado, 25 de agosto de 2012

Trecho do livro "A Estrada da Noite" (Pág. 228)

          "A palma da mão esquerda de Jude estava enfaixada, mas os dedos estavam livres. Brotavam da gaze como se ela fosse uma luva com os dedos cortados. O pai ergueu a navalha para atacar de novo, mas, antes que pudesse baixá-la, Jude enfiou os dedos nos seus trêmulos olhos vermelhos. O velho gritou, torcendo a cabeça para trás, tentando se livrar da mão do filho. A lâmina da navalha oscilou na frente da face de Jude sem toca na pele. Ele forçou a cabeça do pai para trás, cada vez mais para trás, expondo sua garganta esquálida, se perguntando se não podia empurrar com força suficiente para quebrar a espinha do filho da p*ta.
          Enquanto ele mantinha a cabeça de Martin o mais recuada possível, uma faca de cozinha acertou o pescoço do pai.
          Marybeth estava a três metros de distância, parada diante da bancada da cozinha. Ao lado, facas grudadas num suporte imantado preso na parede. Sua respiração vinha em soluços.
          O pai de Jude virou a cabeça para encará-la. Bolhas de ar espumavam no sangue que vazava pelas bordas do cabo da faca. Martin estendeu a mão para a faca, fechou debilmente os dedos em volta dela, depois produziu um som, uma inalação chacoalhante, como uma pedrinha sacudida num saco de papel por uma criança, e cambaleou.
          Marybeth arrancou outra faca de lâmina larga do suporte magnético, depois outra. Pegou a primeira pela ponta da lâmina e atirou-a nas costas de Martin enquanto ele tombava para a frente. Acertou-o com um tac abafado e profundo, como se tivesse jogado a lâmina num melão. O único som que Martin deixou escapar nesse segundo golpe foi um agudo sopro de ar. Marybeth deu um passo na direção dele, segurando a terceira faca na frente do corpo.
          - Fique longe dele! – disse Jude. – Ele não vai ficar aí caído e morrer. – Mas ela não ouviu.
          Pouco depois Marybeth estava sobre Martin. Então o pai de Jude ergueu os olhos e a faca atingiu o rosto dele. Entrou por um canto dos lábios e saiu um pouco atrás do outro canto, transformando a boca num brilhante talho vermelho.
          Enquanto ela o atacava, ele golpeava com a mão direita, a que segurava a navalha. A lâmina desenhou uma linha vermelha na coxa de Marybeth, sobre o joelho direito, e a perna se vergou.
          Martin se ergueu do chão ao mesmo tempo que Marybeth começava a cair. Ele arfava enquanto ia ficando de pé. Num golpe quase perfeito, pegou-a pela barriga e a fez bater na bancada da cozinha. Ela enfiou uma última faca no ombro de Martin, enterrando até o cabo. Foi como se a faca tivesse sido atirada num tronco de árvore, pois não produziu nenhum efeito.
          Marybeth escorregou para o chão, o pai de Jude e cima dela, o sangue ainda espumando daquela primeira faca plantada no pescoço. Martin tornou a brandir a navalha na direção dela.
          Marybeth levou a mão à garganta, apertou-a debilmente com a mão ruim. O sangue foi bombeado por entre os dedos. Um negro e grosseiro rasgo fora aberto na carne branca de sua garganta.
          Ela deslizou para o lado, batendo com a cabeça no chão. Olhava para Jude, que estava atrás de Martin. O rosto de Marybeth estava mergulhado numa grossa e escarlate poça de sangue.
          O pai de Jude caiu de quatro. Uma das mãos continuava enrolada no cabo da faca enterrada na garganta. Os dedos exploravam cegamente, avaliando o tamanho da lâmina, mas sem puxá-la. Ele era uma alfineteira – faca no ombro, faca nas costas -, mas só parecia interessado na que atravessava seu pescoço, nem parecia ter notado as outras lâminas de aço que o perfuravam.
          Martin rastejou sem firmeza para longe de Marybeth, para longe de Jude. Seus cederam primeiro e a cabeça caiu no chão, o queixo batendo com tanta força que deu para ouvir com clareza o estalar dos dentes. Ele tentou se colocar de pé e quase conseguiu, mas o braço direito acabou fraquejando e Martin rolou para o lado. Para longe de Jude, um pequeno alívio. Jude não teria de olhar para seu rosto enquanto ele morresse. De novo."

by Aline Oliveira

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